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Datas: 20 a 26 de Maio de 2006

Itinerário: Atenas / Ossios Lukas / Delfos / Acro-Corinto e Museu de Corinto / Hieraki / Mystra / Monemvassia / Kosma e o Mosteiro / Tolo e Naúplia / Museu de Arte Bizantina e Cristã e Museu Benaki de Atenas / Acrópole de Atenas / Paris / Lisboa

OBJECTIVOS

O Padre Egon Sendler SJ – nosso professor de iconografia, incontestável especialista mundial, em trabalho realizado ao longo de cerca de cinquenta anos, de iconografia bizantina, autor de três livros, um deles traduzido em várias línguas[1], portador de um ensinamento global raro, teórico, prático e de investigação, sobre a teologia, a espiritualidade, a estética e a técnica de ícones e de frescos bizantinos, em especial da tradição grega e russa, responsável por inúmeros estágios internacionais de formação de iconógrafos – costuma organizar uma viagem de estudo anual com os alunos de iconografia bizantina do seu Atelier St Georges, de Versailles, e antigos alunos. O nosso grupo de viagem tinha cerca de vinte pessoas. Eu figurava entre as alunas mais recentes do Atelier Saint Georges, Versailles, onde me desloco regularmente para estágios de formação, além dos estágios prolongados de verão, com o P. Sendler que se realizam em Publier, perto de Évian-les-Bains, Haute-Savoie, França (a 40 kms de Genève, Suiça).

O P. Egon Sendler propôs-nos uma viagem de estudo à Grécia bizantina, para termos oportunidade de visitar espaços de origem da civilização e da arte bizantina – arquitectura, frescos, ícones, mosaicos – em algumas cidades, igrejas e mosteiros – e museus com maior representatividade da arte bizantina grega.

Sendo a Grécia o espaço por excelência do berço da civilização clássica ocidental, além de cidades, igrejas, mosteiros e museus com dominante bizantina, visitámos ainda espaços – cidades e museus- muito relevantes para o estudo da Antiguidade Clássica, em particular Delfos, a Acrópole de Atenas e Corinto.

Cumpre-me assinalar que sendo eu licenciada em Filologia Clássica pela Faculdade de Letras de Lisboa, tendo leccionado grego no ensino secundário durante alguns anos, lendo ainda hoje autores gregos no original, de Homero ao Novo Testamento da Bíblia, não tendo nunca visitado a Grécia, por razões que me ultrapassaram, esta viagem, subsidiada pela Fundação Calouste Gulbenkian, teve para mim um impacto único e muito especial.

Além da orientação do P. Egon Sendler, para a parte bizantina, pudemos seguir as explicações de uma guia local de viagem, de nacionalidade grega, formada em Estudos Clássicos, com conhecimentos de cultura bizantina e informações sobre a vida na Grécia clássica, bizantina e actual.

O trabalho de visita foi muito intenso e prolongado, tendo eu realizado em simultâneo um trabalho documental, através notas de viagem, de algumas imagens que criei em diapositivo, fotografia e vídeo-filme, de postais, livros e brochuras que comprei na Grécia e que li posteriormente.

O ano de 2006 foi o ano em que um iconógrafo grego- que não conheço pessoalmente, do Atelier Karatzas, que viu o meu trabalho – se ofereceu para me fazer um página de Internet, na Bélgica, com um breve texto e duas imagens que lhe forneci. Essa página foi posteriormente instalada em Portugal e visa o atelier que eu iniciei, que se chama Atelier Iconográfico Saint Raphael, com o seguinte endereço www.atelier-st-raphael.pt.vu.

ITINERÁRIO

Viagem aérea Lisboa – Paris; Viagem aérea Paris – Atenas

ATENAS: O CENTRO DA CIDADE

A visita foi feita de autocarro e a pé. Antes tínhamos percorrido muitos quilómetros de autocarro desde o aeroporto ao hotel Stanley, situado na Praça Ikaros, onde ficámos alojados. Observámos contrastes nos diferentes bairros, a importância de subsídios europeus para uma avassaladora onda de construção de prédios, o investimento na construção – o único que se pode arriscar, na Grécia -, a concentração de onze milhões de gregos em Atenas, por não haver verdadeiro trabalho na Grécia senão em Atenas. Apenas em Tessalónica e pouco mais.

Atenas é uma cidade imensa que começa a perder perspectivas por causa da construção muito cerrada, onde não é possível encontrar senão ruas muitíssimos estreitas. Não há espaço para além de algumas praças e artérias principais da cidade. É uma cidade muito ruidosa, com charme para se ver de noite, com muita iluminação, do terraço do hotel, com a colina iluminada da Acrópole ao longe.

Visitámos as praças do centro de Atenas – Omonoia, Sintagma e Karaskaki. Assistimos ao desfile de soldados e ao render da Guarda , na Praça Sintagma. Visitámos o exterior de uma igreja bizantina russa do século XI – foi o nosso primeiro contacto ao vivo com a arquitectura bizantina - e o interior de uma igreja ortodoxa grega moderna.

Passámos pelas ruínas do Templo de Zeus (século VI A.C.) – a que os gregos de hoje chamam “As Colunas”. Parámos no antigo Estádio de Atenas, para o fotografarmos e vermos a colina da Acróle ao longe. Passámos pelo Jardim Botânico, pela Universidade, pela Rua da Universidade Panepisteme, pela zona central de hotéis de luxo de que são proprietários conhecidos armadores gregos, por bairros muito opulentos da cidade, por ex-palácios reais. Percorremos ruas para peões na direcção do conhecido bairro típico e turístico de Plaka que não chegámos a visitar em pormenor por ser já muito tarde.

Passámos pela Beócia e vimos Tebas apenas ao longe. Foi-nos recordado o mito e a tragédia de Édipo, o mito de Édipo e o enigma da Esfinge, a escolha proposta pela Esfinge entre o poder do conhecimento e o poder da ignorância que tudo pode roubar. Foram ainda recordados mitos relacionados com Delfos: a profetisa Pítia (que terminou apenas no século IV D.C.) e o Omphalos ou Umbigo do Mundo, de Poseídon e a fixação da ilha de Delos, de Leto e os seus dois filhos Apolo e Artemísia. Apolo disse a Leto para não ficar em Delos, uma terra ilegal. Apolo foi levado por um delfim para a parte baixa do Monte Parnaso, em Delfos. Delfos não era habitado, só existia para a profecia e o Omphalos que hoje já não se pode encontrar.

MOSTEIRO DE OSSIOS LUKAS

A caminho de Delfos, visitámos o Mosteiro Bizantino de Ossios Lukas do século XI. Lukas era um eremita que vivia perto de Delfos, tendo-se recolhido para a montanha para estar mais perto de Deus, renunciando a todas as necessidades terrenas. Tendo procurado um mosteiro durante 35 anos, profetizou o fim do domínio em Constantinopla. O imperador doou o mosteiro de Ossios Lukas para a sepultura de Lukas que hoje se visita, mostrando o seu corpo com sinais de incorruptibilidade. Lukas ainda hoje faz milagres. Este impressionante mosteiro continua a ter monges e é local de peregrinações. É fabuloso pelos seus frescos, pelos mosaicos, e sobretudo pelos mosaicos com fundo em ouro. Visitámos a igreja, as relíquias de Lukas e assistimos ao baptizado de uma criança.

DELFOS

Visitámos as ruínas de Delfos: a via sacra que sobe na direcção das ruínas do templo de Delfos em cujo subsolo os homens consultavam a Pítia; o teatro onde havia festival de quatro em quatro anos e cuja função era a catarse. Encontra-se a memória de cada edifício ou de cada estátua do que se passou outrora, em 3.000 anos de história, nos tesouros de Delfos. Depois de passarem pelos tesouros, os homens tinham direito a consultar a Pítia sobre o destino de cada cidade a que pertenciam.

Visitámos Delfos, com a guia, até ao templo e depois subimos por nós próprios até ao extremo norte, no pico da montanha de Delfos, par visitarmos as ruínas do imenso estádio. Desci, sempre a pé e a correr, para seguir o grupo, até ao extremo sul de Delfos, às ruínas do templo de Atena Nike e à fonte de Castália. Visitámos o Museu de Delfos, com a sua impressionante colecção, entre outras, de estátuas de Kouroi, de uma Esfinge, de peças em marfim e ouro, de baixos- relevos do templo de Apolo, do Tesouro dos Atenienses, um fragmento dos hinos homéricos a Apolo e Artemísia, com notas de música; o célebre vaso com um pássaro, símbolo da profecia; de Apolo músico; a impressionante estátua de Antínuus, jovem que se tornou musa do imperador Adriano e que se suicidou nas águas do Nilo durante a doença de Adriano que se salvou da mesma doença; até à célebre estátua de bronze do Auriga de Delfos do século VI A.C. cujo contacto ao vivo ultrapassa tudo o que conhecemos e interiorizámos ao longo da vida, dos livros sobre arte grega.

No fim da visita ao Museu, parei, queria estar em silêncio, tentar andar sozinha até ao autocarro. Contemplei em silêncio e filmei o mais demoradamente possível as inesquecíveis colinas de Delfos. Queria escrever um poema, mas o grupo esperava-me. Então escrevi apenas: As noites de ignorância voaram/ O teu olhar fixou-me de longe/ Segui os teus passos…

REGRESSO A ATENAS

Na viagem de autocarro de Delfos para Atenas, fizemos silêncio e ouvimos comentários e reflexões do P. Egon Sendler sobre:

As relações entre as forças da natureza e o ser humano como fundamento da oração e de união com o além;

como a Grécia se tornou a fonte do pensamento ocidental e como o pensamento grego nos influenciou por toda a parte, segundo uma concepção que respeita o homem;

da Grécia para o cristianismo, desenvolveu-se a tendência para que o espírito, o divino, o inteligível (neo-platónico) dominassem na arte cristã. O ideal de kalokagathia (belo e bom) da cultura grega foi-se desviando para dar lugar ao espírito e isso é a iconografia cristã, numa linha próxima do espiritual; as figuras tornam-se menos sensuais e menos naturalistas para se tornarem mais estilizadas e mais espirituais.

A finalidade da iconografia é que a visão do pintor procure corresponder à realidade de Deus. As relíquias ou martyria estão ligadas à ideia de respeito e santificação do corpo.

Acrescento que na Grécia não se faz cremação dos corpos; o corpo morto deve seguir o seu processo natural, dentro da terra; a maior injúria era não dar sepultura ao corpo.

Essa santificação do corpo tem a ver com a preparação da imagem. A arte dos ícones tem a ver com o mistério da Incarnação. Apolo chegou a Delfos; Atena desceu em Atenas. É já o princípio da Incarnação.

PELOPONESO

Ao sairmos de Atenas e antes de avistarmos a ilha de Salamina ao longe, passámos pela região de Dafne, rica em vinha, em loureiro rosa e branco, com festivais vinícolas e onde perdurou o culto de Apolo, permanecendo o mito de Apolo e Dafne. A guia informou que Dafne é uma história esquecida na Grécia.

Passámos pelo Mosteiro bizantino de Dafne, riquíssimo, pela qualidade dos mosaicos com fundo de ouro, embora não tão impressionante como o Mosteiro de Ossios Lukas que visitámos no dia anterior.

Foi-nos recordado o mito de Deméter por passarmos perto do santuário de Deméter, sem o termos visitado. No universo cristão, na Grécia, São Demétrio é o patrono de Tessalónica – segunda capital do império bizantino, a seguir a Constantinopla – onde ainda se fazem peregrinações.

Foram-nos dados todos os pormenores do enterro e do ritual do corpo no post mortem, segundo o rito ortodoxo, com raízes pagãs, ritual pelo qual são enterrados todos os cidadãos gregos, mesmo ateus. Os acompanhantes do defunto comem koliva – passas de Corinto, frutos secos, com salsa que é símbolo da frescura do além: koliva é um sinal da tradição do culto de Deméter; come-se no dia do enterro, ao fim de 40 dias, de três meses, de um ano e de três anos, depois do enterro. Da tumba alugada ou comprada, os ossos do defunto são levantados ao fim de três anos, lavados e guardados numa caixa que se enterra num buraco. A decomposição do corpo deve ser longa, ao ritmo da terra.

Passámos de autocarro por Mégara, a 6 kms do canal de Corinto.

ACRO-CORINTO E MUSEU DE CORINTO

Visitámos as ruínas de Acro – Corinto ou Corinto antiga – Corinto moderna encontra-se à direita – , pilhada pelos Romanos em 146 A.C., tendo-se tornado uma cidade romana no tempo de César. Cidade amplamente comercial, com o Mar Egeu à esquerda e o Mar Jónio à direita, nela se encontram vestígios de inúmeras lojas de comércio, ruínas do templo de Dioniso. Na antiga Agora ou praça pública permanecem as ruínas do templo de Apolo, estátuas de gigantes marinhos, até à fonte Glavki, à entrada do Museu de Corinto.

Foi na antiga Agora que São Paulo leu as suas Cartas aos Coríntios. Lemos em voz alta um fragmento da I Carta aos Coríntios, sobre a caridade (gr.charis).No Museu de Corinto, surpreendeu-nos o modo como estão ordenadas as antiguidades, desde o neolítico, em particular a cerâmica, os vidros, as pequenas estátuas mitológicas. É um museu relativamente pequeno.

Tivemos de esperar que a ponte levadiça cobrisse o Canal de Corinto para podermos almoçar num restaurante.

HIERAKI

Ao deixarmos Corinto, tomámos a direcção de Tripoli que não visitámos, para tomarmos a direcção de Esparta, perto da qual deveríamos visitar Mystra, no dia seguinte. Antecipámos, a 25 kms de Esparta, a visita a Geraki ou Hieraki ( significa “águia”, em grego), uma aldeia bizantina do século XIV, com uma magnífica vista de paisagem e montanha, ainda hoje habitada por camponeses. No topo, no monte Parno, vestígios do Castelo de Hieraki que foi ocupado pelos Francos. Em baixo, visitámos pequenas igrejas bizantinas, ricas em frescos e mosaicos antiquíssimos, de origem. As igrejas bizantinas eram de pequenas dimensões pois assim se acreditava estar mais próximo de Deus. Não se fazem restauros de mosaicos nem de frescos; podem sobrepor-se outros. Visitámos a Igreja Neogeraki Evangelismos (Século XII), a Igreja de São João Crisóstomo (século XII) e a Igreja de Santa Parasceve ( de 1240), com mosaicos do século XIV .

Chegámos a Esparta ao fim da tarde. Esparta é uma cidade moderna, pequena, com muitas lojas, cafés, restaurantes. Na praça pública não há vestígios de antiguidade: há o hábito de se andar nas duas direcções da praça, para se percorrer um número determinado de metros. Não chegámos a visitar as ruínas da Acrópole de Esparta

MYSTRA

Na proximidade de Esparta, visitámos a pé, em sucessivas colinas muito difíceis de se percorrer, a uma temperatura que rondava os 37º-38º, as ruínas de Mystra onde seguimos importantes explicações do P. Egon Sendler, grande especialista no assunto e que dá muitas conferências sobre Mystra. Vimos vestígios do Palácio de Mystra, de casas de nobres, de ruas e edifícios públicos e privados e duas belíssimas igrejas, um mosteiro, com magníficos frescos e alguns ícones: a Igreja de Santa Sofia, o Mosteiro de Nossa Senhora Pantanassa - este com uma loja com reprodução de ícones em papel, colados sobre madeira, da Pantanassa; a Igreja de Nossa Senhora Peribleteros e finalmente a Catedral de Mystra.

Almoçámos num restaurante em Mystra onde ficámos a conversar até quase ao fim da tarde.

MONEMVASSIA

De Esparta partimos na direcção do extremo Sudoeste do Peloponeso, para muito perto da ilha de Citera, para visitarmos Monemvassia, uma cidade medieval, construída numa ampla colina à beira-mar, rodeada por uma muralha. Tivemos de tomar um autocarro de acesso único por um caminho estreito até Monemvassia que é quase uma ilha elevada, lindíssima para se contemplar também de longe. Nela se cruza a arte bizantina com a história da invasão dos Francos, da presença de Venezianos, e posteriormente dos Turcos, estes até 1823. É das mais belas cidades antigas da Grécia, encontra-se bastante preservada, é muito visitada por turistas.

Não nos tendo sido possível visitar todas as igrejas bizantinas, sobretudo as que se encontram no topo da colina, visitámos a Igreja de Cristo Elkomenos (com os braços acorrentados), do século XI. Nela se encontra uma iconostase, mas a maioria dos ícones são cópias de originais que foram destruídos.

Caminhámos na direcção do porto e visitámos, perto do porto, a pequena Igreja Chrisi, construída sobre um poço que ainda se pode ver, rodeado de ícones. Visitámos o Museu Arqueológico local onde se encontram vestígios de várias etapas da história de Monemvassia.

Percorremos as lindíssimas ruas medievais onde as pessoas se deslocam apenas de burro ou a pé. Visitei o atelier de um pintor que faz em simultâneo arte moderna e pinta ícones , embora sem a maior fidelidade às exigências teológicas, estéticas e técnicas dos ícones bizantinos. Almoçámos em Monemvassia.

KOSMA E O MOSTEIRO

Como tínhamos de regressar ao norte do Peloponeso nesse mesmo dia e tínhamos de pernoitar em Tolo, parámos na vila de Kosma, na Arcádia, que apresenta beleza e riqueza local, sobretudo na área da cerâmica, na paisagem, em colinas, com um bom Museu Folclórico, uma biblioteca, espaço para novos habitantes. A Arcádia fica muito perto do teatro do Epidauro que infelizmente não tivemos tempo de visitar.

Os Gregos acreditam em milagres. Havia a tradição de um ícone milagroso, no século XI, nesta região, com uma chama escondida que luzia sobre um rochedo, na montanha. O primeiro núcleo deste Mosteiro, impressionantemente construído sob esse rochedo, data do século XIII. A arquitectura do Mosteiro foi acrescentada e renovada e nele permaneceram monges até 1971. Desde essa data vive lá uma comunidade de monjas. Na igreja do Mosteiro há uma conjunto imenso de turíbulos para incenso, de luzes, de velas e de promessas. Cada um desses objectos esconde uma dor e um milagre, segundo nos foi dito. No exterior, vários edifícios e uma longa fila de reproduções de ícones e de objectos sagrados para venda.

TOLO e NAÚPLIA

Ao longo deste percurso de autocarro, o P. Egon Sendler falou-nos da vocação dos eremitas e monges, da vida de oração e das suas exigências, da vida em comunidade, da construção de mosteiros. Falou-nos ainda da importância dos ícones para alimento da vida espiritual e monástica. Referiu o exemplo do ícone da Trindade que S. Sérgio encomendou ao pintor Roublev, para o Mosteiro da Trindade, na Rússia.

De Kosma para Tolo, passámos por Leonido, Astros, Tyros, pequeníssimas aldeias para férias, à beira-mar. Fizemos uma longa viagem de autocarro num litoral desertificado, apenas a rocha, a paisagem e o mar. Alguém pôs a tocar, nesta etapa, no autocarro, um CD de Amália Rodrigues cuja voz , tão próxima de nós e dessas paragens, me comoveu.

Chegámos a Tolo já de noite, para, no dia seguinte, partirmos para Atenas, com passagem por um Mosteiro bizantino do século XI e por Naúplia.

De manhã visitámos o pequeno Mosteiro de Hiera Moni, rodeado de alguns mosaicos, na álea exterior, de pequenas capelas, com alguns ícones. O primeiro núcleo deste mosteiro data de 1146. Não nos apresentou nada de especial em relação a tudo o que já tínhamos visitado. Após alguns kilómetros, percorremos as ruas centrais e o porto da bela cidade de Naúplia que foi a primeira capital da Grécia. Visitámos a ampla catedral bizantina tardia de Naúplia cujos ícones já não têm a expressão de imagem do divino, mas neles predomina a expressão naturalista. Ouvimos, como em todas as outras igrejas e mosteiros, os comentários de P. Egon Sendler.

Neste percurso de autocarro foram-nos recordados, pela guia, aspectos de história, de mitos e de tragédias relacionadas com Argos, Tirinto, Micenas e Nemeia, por cuja proximidade passámos. Parámos de novo no Istmo de Corinto para regressarmos a Atenas.

ATENAS: MUSEU DE ARTE BIZANTINA E CRISTÃ E MUSEU BENAKI

Neste Museu, em Atenas, foi surpreendente a riqueza de peças de tecido de arte copta, de rolos de pergaminho, de baixos-relevos, de estátuas – em particular de Cristo pastor- e sobretudo de frescos e alguns inesquecíveis ícones bizantinos - em particular ícones da Crucifixão, da Mãe de Deus, um célebre ícone do século XIV representando o Arcanjo São Miguel, grande chefe dos exércitos celestes(segundo a inscrição), em busto, com uma extraordinária finura de rosto – no nariz e na boca-, olhando de frente, com o rosto muito luminoso.

Um livro intitulado Conversation with God, à venda neste Museu, reúne os ícones do Museu que figuraram numa exposição internacional.

Ouvimos explicações detalhadas pelo P. Egon Sendler.

Na mesma rua, em Atenas, visitámos ainda o Museu Benaki, famoso pela sua variedade de peças, distribuídas em vários andares, relacionadas com a arte, o traje e o folclore grego. Por falta de tempo, tivemos de nos concentrar nas salas dos ícones de uma grande beleza, ouvir os comentários do P. Sendler. Vimos várias técnicas de desenhar, pintar, de fazer auréolas e fundos, nos ícones. Um célebre ícone sobre a Fuga para o Egipto tornou este Museu conhecido. Um outro ícone da Mãe de Deus mostrou-nos um modo maravilhoso de iluminar o rto da Mãe de Deus e do seu Filho.

Fizemos ainda um percurso a pé, por ruas centrais de Atenas até regressarmos ao hotel – desta vez longe do centro – onde jantámos.

A ACRÓPOLE DE ATENAS

Na manhã seguinte visitá,os uma loja, em Atenas, onde pudemos conhecer pigmentos gregos, para a pintura de ícones.

Começámos a subir a Acrópole de Atenas, observámos de longe o espaço da Agora e do Areópago. Antes de chegarmos aos Propileus, a guia sintetizou bem os mitos relativos à deusa Atena, deusa da sabedoria – que harmoniza em si as componentes homem-mulher-vitória (nike)-; a deusa das ideias que, como os anjos, são figuradas, nas estátuas de Atena com asas (Athena Nike pterotos), as quais têm de ser cortadas para que possam partir (Athena Nike apterotos); a deusa da inteligência e da astúcia – metis.

Tendo Atena ganho a disputa com Poseídon para governar Atenas, o templo de Poseídon foi construído no Cabo Sunion e, na Acróple de Atenas, foram construídos três templos a Atena: o Parthenon, a Atena Palas, parthenos, virgem guerreira (com componente de homem ); o Erecteion, a Atena Poleas ( componente mulher) e o templo de Atena Nike ( componente vitória).

Ao longe, do porto do Pireu, via-se a gigantesca estátua de Atena Palas. Com os bombardeamentos de 1680, boa parte da Acróple ficou destruída, seguindo-se mais tarde o que os gregos consideram roubo por parte de Lord Elgin, que transportou fragmentos maiores de ruínas do Parthénon, para o Museu Britânico. A Inglaterra promete devolvê-los à Grécia num futuro próximo para onde haja um espaço perfeito para os expor.

É comovente esta visita das ruínas da Acrópole .

Terminámos a viagem com uma breve e solitária visita ao Museu da Acrópole onde nos foi possível ver ao vivo as inúmeras estátuas de todas as épocas da história da arte grega – que conhecemos de livros e da nossa investigação na área dos Estudos Clássicos e História da Arte – bem como de frisos e fragmentos de arte que existiam na Acrópole. Nele se encontram as quatro verdadeiras Cariátides do Erecteion – as que se vêm no próprio Erecteion são cópias- e uma famosa estátua enorme de Atena, em posição de combater um gigante. Foi com a maior pena que deixei este Museu que pertence ao meu imaginário.

Terminei a visita sozinha, a percorrer o espaço do alto da Acrópole, a olhar Atenas de cima, a interiorizar o comovido e profundo encontro com este espaço, com as ruínas dos três templos, a imortalidade de Atena – Atena significa que não morre -, a ideia de que o pensamento, a meditação, o uso da inteligência têm a ver com a capacidade de controlo e auto-controlo, no sentido globalmente positivo, que o indivíduo é e será sempre o mesmo; a ideia de que o pensamento grego não morre; enfim todo o inefável do reencontro com um espaço que sempre me habitou e que só nessa data me foi dado visitar, depois de conhecer tão bem, ao longo de tantos anos, os Museus de Paris e de Londres, com as respectivas Antiguidade Gregas.

REGRESSO: ATENAS – PARIS – LISBOA

Depois de termos almoçado num restaurante ainda na Acrópole de Atenas, tendo já as nossas malas no autocarro, regressámos ao aeroporto de Atenas e viajámos para Paris- Charles de Gaulle. Chegámos quase de noite e eu ainda segui de noite para Versailles. No dia seguinte viajei de Versailles para o aeroporto de Orly e de lá regressei a Lisboa, com energia fabulosa que a Grécia me transmitiu e a vontade de aperfeiçoar o meu trabalho de iconografia.


Esta viagem foi uma preciosíssima charneira para a um tempo me reencontrar com espaços da Grécia Clássica que me povoam desde a juventude, pelos meus Estudos Clássicos e pelo ensino do grego, por me permitir ter o contacto profundo com as raízes da arte bizantina, em particular do estudo da arquitectura, de frescos e ícones de origem que perduraram ao longo de séculos. Permitiu-me aprofundar aspectos da teologia, espiritualidade, estética , da técnica da “escrita” de ícones, ( termo preferível ao de “pintura” de ícones), da preparação das tábuas, antes de as pintar. Consegui também dialogar com cidadãos gregos – a guia e habitantes locais – , tendo ficado encantada com a alegria, abertura e hospitalidade que deles irradiava.

Ficou o desafio para continuar a atravessar a sombra das cores de base, transmutar cores que procuro, aperfeiçoar o desenho, que é a estrutura do próprio ícone. A tradição do ícone bizantino mediterrânico, grego, pelo modo como trabalha a luz dos rostos, está em uníssono com a inequívoca procura de luz que sempre procurei na geografia, na arte, na vida, na inteligência e no espírito.

Helena Langrouva


[1] Egon Sendler, L’Icône, Image de l’Invisible, Desclée de Brouwer, Paris, 1981, reimpresso em Itália em Maio de 2007,edição do autor ; Les icônes byzantines de la Mère de Dieu, Desclée de Brouwer, Paris, 1992 (esgotado) ; Les Mystères du Christ, Desclée de Brouwer, Paris, 2001 (esgotado). Publicará em breve um novo livro.

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